conto n.102
A brasa do cigarro iluminava o ambiente. Entre livros e cigarros, lá estava ele mais uma vez. Na tela do computador, a longa conversa que se desenrolava. A foto dela, sem foco, em destaque. E ele, mais uma vez, debruçado em frente a maquina que, nos últimos tempos, vinha adicionando sentido em sua vida. Olhando a foto, relendo as frases ditas, o diálogo infindável. Pegou-se admirando a estranha foto. A estranha beleza que emanava dela. E tudo o que aquela foto representava.
Não podia ser real. Seus relacionamentos nunca passavam de uma garrafa de whiskey barato e cama. Sexo e bebidas, era o que sabia fazer de melhor. Era apenas o que sabia, ou melhor, queria fazer. Não tinha tempo para juras de amor, ou carinhos ao pé do ouvido. Contato físico, fora em horas providenciais, lhe dava asco. Pessoas, em geral, lhe davam asco. Preferia não conviver com quaisquer outros que não o compreendessem.
E agora ela. Longe e impalpável. Ela. Ele a queria. Queria estar perto dela, conversar, deitar-se contando estrelas, como fazem os enamorados. Trocar confissões, carinhos e juras de amor. Passear de mãos dadas e tomar sorvete. Ele riria de suas piadas, ela ouviria suas teorias.Era ela a mulher de sua vida. Ao menos, por estar longe, era assim que ele a via. A mulher perfeita. A que ele queria.
Deixou de sair com os amigos.Trancafiou-se em seu quarto, saindo de lá apenas para cigarros, bebidas e algum sexo casual com uma amiga ou duas. Eram horas em frente ao computador. Eram conversas intermináveis. E a certeza de ter encontrado o amor perfeito se fazia cada vez mais forte, cada vez mais tangível. Chegou a acreditar que não mais morreria bêbado em um beco qualquer. Pensou em arrumar emprego, casar e ter filhos. Se enquadrar no mundo, como um cidadão qualquer, comum e apagado. Por ela.
Deu mais um trago no cigarro amassado e deixou-se cair, novamente, nos caminhos pelos quais seu pensamento o guiava. Filhos, músicas dedicadas, danças no escuro, beijos roubados.
Tão inteligente, tão divertida e espirituosa. Ainda por cima, tão bonita, tão sensual. Como alguém como ela estaria interessada em alguém como ele?
Leu a mensagem no monitor:
- Comprei uma passagem para ir te ver. Reservei um quarto em um hotel para nós. Estarei aí no fim de semana. Você me busca na rodoviária?
Sentiu um calafrio. Sentiu medo. E sentiu todo o seu amor desmoronar. Ela o queria. Viu a beleza de tudo aquilo se desfazer, pois, agora, eles estariam juntos. E nada restaria deste encontro. Nada proveitoso poderia sair de uma relação como aquela. De uma relação com ele, o Rei Minos.
Ele a buscou no dia marcado. Beijou-a e embebedou-a. Tarefa non grata, a menina era dura na queda. E isso destruiu ainda mais a relação. Ele não queria alguém como ele, mesmo que ela não o fosse. Queria alguém melhor, mesmo que não admitisse que havia pessoas melhores do que ele. Ela deveria tirá-lo do buraco e não o afundar ainda mais. Não, ela não era quem ele imaginava. Ao seu lado, ele tinha vontade de ser alguém melhor. E isso destruiria seus planos.
Levou-a para o hotel. Jogou-a na cama e dali não saíram por horas. Fizeram de tudo. Entregaram-se um ao outro, de corpo inteiro. Dormiram abraçados, com as pernas entrelaçadas, tremendo. Acordaram no dia seguinte, não se desgrudaram por um segundo. Apesar dos risos, da conversa fácil, o asco, o contato físico em excesso, começava a incomodá-lo.
Depois de um dia de passeios e beijos voltaram ao hotel. Transaram como cachorros no cio, beberam todos os drinques do mini-bar e adormeceram. No dia seguinte, ela partiu e levou consigo a fé que ele possuía em encontrar alguém que o completasse. Desistiu de acreditar nisso, era apenas mais uma idéia sem fundamento, e enveredou rumo aos amigos, rumo ao bar mais próximo.
Não, o problema não era com ele. Não era o fato de não aceitar seus defeitos, de não aceitar mudanças. O problema era dela. Delas. Elas não conseguiam vê-lo. Ver seu talento, sua unicidade, todo o seu potencial. Ver em como ele lutava para afastar de si, qualquer possibilidade de ser feliz. Isso arrasaria seus planos. Entre eles, o plano de morrer bêbado num beco qualquer, sozinho.
Não podia ser real. Seus relacionamentos nunca passavam de uma garrafa de whiskey barato e cama. Sexo e bebidas, era o que sabia fazer de melhor. Era apenas o que sabia, ou melhor, queria fazer. Não tinha tempo para juras de amor, ou carinhos ao pé do ouvido. Contato físico, fora em horas providenciais, lhe dava asco. Pessoas, em geral, lhe davam asco. Preferia não conviver com quaisquer outros que não o compreendessem.
E agora ela. Longe e impalpável. Ela. Ele a queria. Queria estar perto dela, conversar, deitar-se contando estrelas, como fazem os enamorados. Trocar confissões, carinhos e juras de amor. Passear de mãos dadas e tomar sorvete. Ele riria de suas piadas, ela ouviria suas teorias.Era ela a mulher de sua vida. Ao menos, por estar longe, era assim que ele a via. A mulher perfeita. A que ele queria.
Deixou de sair com os amigos.Trancafiou-se em seu quarto, saindo de lá apenas para cigarros, bebidas e algum sexo casual com uma amiga ou duas. Eram horas em frente ao computador. Eram conversas intermináveis. E a certeza de ter encontrado o amor perfeito se fazia cada vez mais forte, cada vez mais tangível. Chegou a acreditar que não mais morreria bêbado em um beco qualquer. Pensou em arrumar emprego, casar e ter filhos. Se enquadrar no mundo, como um cidadão qualquer, comum e apagado. Por ela.
Deu mais um trago no cigarro amassado e deixou-se cair, novamente, nos caminhos pelos quais seu pensamento o guiava. Filhos, músicas dedicadas, danças no escuro, beijos roubados.
Tão inteligente, tão divertida e espirituosa. Ainda por cima, tão bonita, tão sensual. Como alguém como ela estaria interessada em alguém como ele?
Leu a mensagem no monitor:
- Comprei uma passagem para ir te ver. Reservei um quarto em um hotel para nós. Estarei aí no fim de semana. Você me busca na rodoviária?
Sentiu um calafrio. Sentiu medo. E sentiu todo o seu amor desmoronar. Ela o queria. Viu a beleza de tudo aquilo se desfazer, pois, agora, eles estariam juntos. E nada restaria deste encontro. Nada proveitoso poderia sair de uma relação como aquela. De uma relação com ele, o Rei Minos.
Ele a buscou no dia marcado. Beijou-a e embebedou-a. Tarefa non grata, a menina era dura na queda. E isso destruiu ainda mais a relação. Ele não queria alguém como ele, mesmo que ela não o fosse. Queria alguém melhor, mesmo que não admitisse que havia pessoas melhores do que ele. Ela deveria tirá-lo do buraco e não o afundar ainda mais. Não, ela não era quem ele imaginava. Ao seu lado, ele tinha vontade de ser alguém melhor. E isso destruiria seus planos.
Levou-a para o hotel. Jogou-a na cama e dali não saíram por horas. Fizeram de tudo. Entregaram-se um ao outro, de corpo inteiro. Dormiram abraçados, com as pernas entrelaçadas, tremendo. Acordaram no dia seguinte, não se desgrudaram por um segundo. Apesar dos risos, da conversa fácil, o asco, o contato físico em excesso, começava a incomodá-lo.
Depois de um dia de passeios e beijos voltaram ao hotel. Transaram como cachorros no cio, beberam todos os drinques do mini-bar e adormeceram. No dia seguinte, ela partiu e levou consigo a fé que ele possuía em encontrar alguém que o completasse. Desistiu de acreditar nisso, era apenas mais uma idéia sem fundamento, e enveredou rumo aos amigos, rumo ao bar mais próximo.
Não, o problema não era com ele. Não era o fato de não aceitar seus defeitos, de não aceitar mudanças. O problema era dela. Delas. Elas não conseguiam vê-lo. Ver seu talento, sua unicidade, todo o seu potencial. Ver em como ele lutava para afastar de si, qualquer possibilidade de ser feliz. Isso arrasaria seus planos. Entre eles, o plano de morrer bêbado num beco qualquer, sozinho.
